domingo, 4 de dezembro de 2011

PERFORMANCE E INSTALAÇÃO "A MORTE DA CIÊNCIA"

Banqueiros, a igreja católica, empresários e uma dama da sociedade entre si repartem o espólio do "defunto".


Curiosos veem estupefatos o estranho defunto. O espanto é maior ao reconhecerem no caixão objetos comuns ao seu dia-a-dia. No fundo do caixão foi fixado um espelho.


Eu recito Augusto do Anjos e faço intervenções aleatórias.


O cortejo percorre os corredores do departamento de Artes e segue em frente a Universidade Federal do RN.

Lá fora, 500 cruzes de madeira foram fixadas.


Nesse instante a universidade deixa de ser a casa do conhecimento e passa a ser o cemitério da ciência.

São 10 horas da manhã, chove levemente, as pessoas estão curiosas, estupefatas, confusas, mas de acordo com a ação do enterro pois é evidente que a tal ciência morrera há tempos.



“A morte da ciência” foi uma atividade artística ocorrida em 2002 na UFRN, idealizada por mim, realizada durante a “Semana dos ignorantes”, atividade artística e social criada pela professora de cultura popular Clotilde Tavares visando ampliar a discussão sobre os conhecimentos acadêmicos e a capacidade de resolver problemas comuns interagindo com a sociedade. Com o apoio de vários colegas, principalmente de Ilton, foram fixadas 500 cruzes de madeira na frente da UFRN. De corpo presente velamos a ciência representada por equipamentos eletroeletrônicos, e caixas de produtos industrializados juntados em um caixão de defunto, forrado por folhas de outdoor.

A Instalação e as performances questionavam o quanto a ciência no mundo contemporâneo urbano, ocidental se distanciou da sua orientação humana original em favor da indústria, do mercado se transformando em instrumento de grandes grupos financeiros. Questionava-se também a quem a universidade servia: para as pessoas ou para as corporações econômicas.

Fios - Infogravuras em tecido


FIOS 1. Infogravura em tecido.2 x 180 cm. Acervo do artista.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Fios - Infogravuras em tecido




Fios. Infogravuras em tecido.250 cm x 250 cm.

1998. Painel com sobras de disquetes. 3 Mx 2M.

EX-TUDO



Por fim, o estudo.


A instalação encontra-se onde normalmente funciona uma sala de aula do curso de Educação Artística da UFRN. Parte do equipamento da sala, as cadeiras, foi utilizada pelo artista Cláudio Damasceno para compor, recompor uma instigante obra de arte. No processo (dês)construtivo do novo lugar, o artista fixou as carteiras no teto, propondo um sentido de inversão funcional do ambiente, já que o equipamento assume a inutilidade e o estranhamento próprios do que é obra de arte. Não se podem usar as carteiras; apenas vê-las, inúteis, fixas no teto.
O artista mantêm o sentido de inversão quando deita ao chão um boneco, símile de um estudante ou de um professor, enfim de um usuário daquela sala. Terá este personagem caído de uma das carteiras ou está de fato em repouso? È um temporário distanciamento das tarefas corriqueiras ou é o momento de paralisação absoluta, quem sabe o personagem está morto? Todo modo, sua visão parece intensificada, assim como seus olhos projetados por um aparelho que se estende desde o seu rosto. Ele está deitado em um tapete de papel impresso, oriundo de um ou mais outdoors. O mesmo tipo de papel, em que ainda aparecem resquícios de letras, foi usado para recortarem-se as letras da palavra “Ex-tudo”, colada em uma das paredes. A palavra é tomada como título da obra. A princípio, a referência verbal, pelo material com que foi elaborada, dirige-se à publicidade ou, em sentido ampliado, à cultura de massas. A inversão, então, consiste em contrapor a cultura de massas, que se difunde nas ruas, à alta cultura, que também se pretende veicular numa sala de aula, na universidade. Quanto a palavra em si, “Ex-tudo”, teria pelo menos duas interpretações. Na primeira, ela é uma jocosa corruptela de “estudo”, o ato específico de quem estuda ou lê. Para o personagem da instalação, no seu repouso/morte, a última das coisas seria o estudo ou ele não estuda ou o estudo é passado, é ex, assim como a sala é uma ex-sala ou uma não-sala de aula. Noutra acepção, a palavra faz jogo com o prefixo, numa sinonímia para pós-tudo, depois de tudo. Como a instalação foi montada em uma escola de arte, este jogo conduz aos discursos críticos ou históricos da arte e suas adjetivações ou rotulagens de gêneros e estilos. O artista pode estar refletindo sobre a situação de crise criativa nas artes visuais, em particular referindo-se a instância límbica para as artes em geral e, inversamente, o autor indica que, em tal momento, depois de tudo sofrido pelas artes, resta ao artista a pesquisa, o estudo.
Em um meio em que poucos se ocupam em experimentar a instalação como forma de produzir arte, este trabalho de Damasceno merece atenção pela objetividade com que faz emergir os significados de sua obra, ao tempo em que amplia o esforço de alguns como Saionara Pinheiro, Candinha Bezerra ou Guaraci Gabriel.

Extraído do livro “INTRODUÇÃO À CULTURA DO RIO GRANDE DO NORTE”, publicado pela editora Grafset.


Texto crítico de Vicente Vitoriano sobre a instalação do design e artista plástico Cláudio Damasceno. Publicado no Diário de Natal em 06.02.2003.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

CORDURA



Uma visão objetiva, a construção fotográfica imaginária de Cláudio Damasceno se demonstra na perspectiva de montagens de ladrilhos hidráulicos dentro de sua imaginação matrix do que conceberia o designer Aloísio Magalhães ao inventar os seus cartemas de 1971, mosaico permutável a partir de um único cartão-matriz gerador, reduzido e reproduzido múltiplo/diminuto em um só cartão de tamanho normal.

As lâminas serigráficas (24 x 34 cm) aqui expostas exercem uma signagem postal, para composição, azulejos e/ou ladrilhos numa simbiose geométrico/figurativa. Os essencialmente geométricos se situam como poemas visuais construtivos, que nos remetem às concreções de Sacilotto, de 1952.

Uma outra vertente, gestaltica, expressam quase-figurações e/ou quase-paisagens de uma certa viagem lírico-nostálgica moderna (essa mostra resulta do experimento realizado a partir de colagens com tampas de caixa de camisetas, posteriormente digitalizadas e alteradas”, afirmaria o autor, o resultado final “de um processo de montagem: colagem, bricolagem, cartemagem”, como se referiria, Antônio Houaiss, em apresentação aos cartemas de Aloísio Magalhães.

Nessa perspectiva, o artista múltiplo, designer, pintor, escultor, músico, enfim, define em Cordura: “a cordialidade do ser e a dureza da cor”, ou seja, a cordialidade da cor, usando as três cores matrizes básicas numa perspectiva de uma educação do olhar, do ver geracional as possibilidades sensoriais de mistura e fruição estética de versões a serem operadas pelo leitor da obra matriz/em/processo. Sem mistificações Cláudio Damasceno opera um passado também concreto, entre o telúrico e o espaço industrial; o porto e a metrópolis; o velho e o novo. Velho redivivo.

Jota Medeiros
CURADOR

Gravuras em serigrafia





No Cordura vejo ressonâncias não só dos Cartemas de meu saudoso mestre Aloisio Magalhães, mas também de alguns Metaesquemas de Oiticica. Gostei imensamente das variações que você desenvolve a partir de temas conexos, expandindo campos e fazendo algumas formas e "personagens" retornarem em outra configuração. Identifiquei, com prazer, a imagem do futebol que você reproduziu em umas de suas camisetas. Seu trabalho gráfico revela surpreendente diversidade de recursos técnicos e muita liberdade criativa. Lhe parabenizo pela elevada qualidade de seu trabalho - limpo, claro, cromaticamente rico e altamente expressivo.

Forte abraço, com admiração e afeição.”

Silvio Da-Rin. Cineasta. Secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura.
Diretor do curta-metragem Phoenix e do longa-metragem Hércules 56.














Corduras Damascênicas

Pablo Capistrano


Dizem que um dia o brasileiro foi um homem cordial.

Eu acredito nisso porque, de certa forma, em minha memória ainda existe espaço para as imagens de um mundo marcado por cadeiras na calçada no fim da tarde e por uma dimensão afetiva no olhar e nas palavras dos meus conterrâneos. Mas o tempo, e sua mais cruel esposa, a história, trataram de, ao menos em minha cidade, sepultar, em meio a toneladas de concreto e a uma avalanche de consumo, os restos dessa cordialidade utópica que parece ter um dia marcado as tardes do Brasil.

Hoje, a minha sensação, é que alguma coisa sem forma definida andou levando meus conterrâneos para o lado sombrio dessa imensa fantasia nietzscheana chamada Brasil.
Às vezes eu consigo encontrar a palavra exata para descrever o sentimento que eu tenho quando penso sobre essa perda tão significativa da cordialidade essencial que um dia parece ter agregado as partes fraturadas de meu povo, em um sonho dialético, onde os contrários podiam conviver. Mas, nessas horas, ainda bem que existe a arte para substituir minha voz e mostrar aquilo que eu não consigo expressar em palavras.

Essa semana entrei na galeria do NAC (na UFRN) e me deparei com a exposição de gravuras do artista plástico Cláudio Damasceno. A exposição intitulada "Cordura" faz alusão a uma bela e antiga palavra da língua portuguesa, que parece ter sido abandonada pelos brasileiros nos últimos anos. Cordura é a qualidade de quem é cordato, cordo (que vem tanto do português antigo quanto do espanhol cuerdo).

A cordura, palavra usada por Machado de Assis e que nos leva a um tempo de comunhão em um Brasil utópico e original, subitamente se transforma, na obra de Damasceno em uma "cor dura", uma irredutibilidade inexpugnável, representada nas três cores básicas (azul, amarelo e vermelho) usadas em cada uma das gravuras da exposição em seus três planos. Não há gradação nas cores de Cláudio Damasceno e se os personagens, insinuados pelas formas geométricas das gravuras, se confraternizam em uma deliciosa cordialidade, o cenário, o ambiente, o mundo que os circunda, com sua dureza e urbanidade não permite a comunhão, impedindo que as cores se unam e formem novas matizes.

Há uma ameaça subentendida que paira na pintura de artistas como Hopper (pintor norte americano que retratou, hiper realisticamente o mesmo tipo de conflito que emerge da obra geométrica de Damasceno).

O cenário, com seu peso absoluto e objetivo, parece sempre tramar contra as figuras humanas, que buscam umas as outras em um carnaval de desencontro, e solidão. É como se o cenário de nosso mundo, tão cru e objetivo, com sua lógica de produção, com seu rigor que mata os sonhos de amor e de fraternidade dos homens, pudesse a qualquer momento engolir seus personagens. A dureza primitiva das coisas pode aparecer de modos diferentes.

Em Hopper, por exemplo, ela aparece na solidão das casas vazias em cima das colinas no fim de tarde, no silêncio que salta de uma bomba de gasolina abandonada em um posto de beira de estrada, na figura da lanterninha de cinema solitária, que não pode ou não quer assistir ao filme que se projeta na tela. Com suas cores básicas e suas linhas demarcadas, impedindo a gradação e construindo as formas geométricas que insinuam as figuras de suas gravuras, Damasceno consegue como Hopper, nos transportar a situações de nossa própria vida, como se em um flagrante fotográfico do cotidiano, pudéssemos visualizar nosso desejo de amor, nossa ansiedade de amizade, nossa busca de cordura, em meio a dureza das cores do mundo.

Em uma Natal em transformação constante, em um mundo que se acelera e se concretiza velozmente, substituindo a paisagem natural pelo cimento e o concreto dos arranha-céus a pintura de Damasceno nos alerta, para o inquietante estado de nossa própria cordialidade, de nossa própria condição de sujeitos, humanos em meio a frieza das coisas.

Para quem acredita que arte é decoração e que o papel do artista é enfeitar parede de clínica odontológica eu sugiro um passeio pelo universo pictográfico de Damasceno. Porque a arte também pode nos ensinar, ela joga na nossa alma a palavra que falta na nossa boca e dá forma a nosso estranho sentimento de orfandade, para que a vida e a dureza das coisas não possa, um dia, definitivamente nos apartar e nos destruir.